A Terapia Focada nas Emoções (TFE)2 é uma abordagem clínica de curto prazo dentro da modalidade de terapia conjugal. A TFE é apresentada como baseada em evidências, empiricamente fundamentada e comprovadamente eficaz.3 A abordagem tem atraído a atenção de terapeutas de casamento e família em todo o espectro do aconselhamento cristão.4 Defensores do integracionismo cristão e da psicologia cristã têm argumentado em favor da integração, tradução ou redenção das metodologias da TFE para uma abordagem cristã de aconselhamento.5 A questão é se os pressupostos principais da TFE são compatíveis com o ensino das Escrituras cristãs. Além disso, se houver incongruência entre os pressupostos centrais da TFE e a doutrina bíblica, devem ser consideradas as implicações de se tentar adotar suas técnicas terapêuticas. Como todas as teorias de aconselhamento, a TFE é sustentada por uma sólida base filosófica da qual derivam suas metodologias.6 A principal teórica da TFE, Susan Johnson, fornece, de forma útil, declarações claras acerca dos pressupostos filosóficos que fundamentam as metodologias da TFE.7 As técnicas e metodologias da TFE são projetadas para alcançar tarefas específicas dentro de uma estrutura terapêutica bem definida, meticulosamente construída sobre uma base filosófica específica. No que segue, os principais pressupostos da TFE serão delineados e examinados à luz da doutrina bíblica, a fim de demonstrar a disparidade entre ambos. A tese deste artigo é que a Terapia Focada nas Emoções deve ser rejeitada pelos cristãos com base no fato de que os pressupostos principais da teoria, conforme articulados por Susan Johnson, são incompatíveis com a antropologia bíblica.
O propósito deste artigo é demonstrar a disparidade entre os pressupostos principais da teoria de TFE de Susan Johnson e a antropologia bíblica. Susan Johnson é uma das fundadoras e principais arquitetas da teoria e da prática da TFE. A TFE é caracterizada por pressupostos específicos acerca da natureza humana, funcionamento, relacionamentos, problemas e soluções.8 Johnson apresenta cinco pressupostos principais que formam a base ideológica da TFE. Primeiro, ela argumenta que ?o paradigma mais apropriado para a intimidade adulta é o de um vínculo emocional? e que ?a questão central no conflito conjugal é a segurança desse vínculo.?9 Segundo, ela sugere que ?a emoção é fundamental na organização dos comportamentos de apego e na organização da forma como o eu e o outro são experimentados em um relacionamento íntimo.?10 Terceiro, ela afirma que ?os problemas nos relacionamentos são mantidos pela forma como as interações são organizadas e pela experiência emocional dominante de cada parceiro na relação.?11 Quarto, ela propõe que ?as necessidades e desejos de apego dos parceiros são essencialmente saudáveis e adaptativos.?12 Quinto, ela teoriza que ?a mudança na TFE está associada ao acesso e ao reprocessamento da experiência emocional subjacente à posição de cada parceiro no relacionamento.?13 Estes são cinco pressupostos principais específicos da TFE apresentados por Johnson que serão avaliados a seguir.
Embora outros pontos de vista possam ser adotados, a perspectiva da antropologia oferece uma lente através da qual se podem observar as disparidades existentes entre os pressupostos principais da TFE e os ensinamentos centrais da Bíblia. A antropologia bíblica trata do que a Bíblia ensina acerca do que significa ser humano. Por incompatibilidade, entende-se que os princípios antropológicos da TFE se opõem ao ensino das Escrituras, de modo que ambos não podem coexistir de forma coerente. Um pode ser verdadeiro e o outro falso, mas ambos os sistemas não podem ser simultaneamente verdadeiros. A disparidade que será demonstrada entre a TFE e a antropologia bíblica apresenta um problema para aqueles que buscam integrar, traduzir ou redimir, de forma eclética, as metodologias da TFE em uma abordagem cristã de aconselhamento. A implicação, portanto, é que os métodos da TFE não são filosoficamente neutros, mas fazem parte de um sistema mais amplo com compromissos antropológicos contrários aos ensinamentos das Escrituras.
A TFE surgiu na década de 1980 no trabalho do psicólogo canadense Leslie Greenberg juntamente com uma de suas alunas, Susan Johnson.14 A TFE é experiencial, orientada ao processo e focada nas emoções. A teoria originalmente se desenvolveu como uma reação às abordagens psicanalíticas, comportamentais e cognitivas, incorporando o humanismo da chamada terceira força15 da psicologia. Trata-se de um desdobramento da psicoterapia experiencial de processo desenvolvida por Greenberg para a modalidade de terapia individual. A TFE combina teorias centradas na pessoa, do apego e sistêmicas.16 A teoria sustenta que as pessoas são essencialmente boas e, se lhes forem dadas as condições adequadas, tenderão ao crescimento.17 O processo terapêutico na TFE não é orientado por informação e conteúdo, mas pela experiência e pelo processo. À maneira rogeriana, a aliança terapêutica deve ser caracterizada por uma postura empática, não diretiva e afirmativa em relação ao cliente. A TFE adota a fenomenologia epistêmica e pressupõe que a experiência do cliente é a realidade primordial e que a ?verdade? é o produto perceptivo do campo fenomenal do cliente.18
Até 1996, Susan Johnson havia ampliado a abordagem experiencial de processo, estabelecendo sua própria abordagem e se distinguindo de Greenberg, ao acrescentar contribuições da teoria do apego.19 Johnson foi influenciada pelo trabalho de John Bowlby e passou a argumentar que o apego adulto é a chave para compreender os relacionamentos humanos.20 Embora haja sobreposição significativa e semelhanças, a TFE de Johnson deve ser distinguida do modelo de Greenberg. Em meio às semelhanças, a principal distinção está na forma como Johnson utiliza as teorias do apego e dos sistemas. Johnson propôs que a TFE é ?integrativa?, significando que ?integra um foco intrapsíquico sobre como os indivíduos processam sua experiência, particularmente respostas emocionais fundamentais orientadas ao apego, com um foco interpessoal sobre como os parceiros organizam suas interações em padrões e ciclos.?21
Desde o nível popular até o meio acadêmico cristão, a relação entre o cristianismo e a TFE permanece em debate contínuo. Como indicado anteriormente, a TFE tem sido uma teoria de interesse para integracionistas cristãos e psicólogos cristãos.22 De forma mais ampla, o trabalho de Johnson foi popularizado e direcionado diretamente a um público cristão.23 O alcance da influência da TFE expandiu-se por meio de diversos livros de caráter popular escritos por Johnson. No discurso acadêmico, alguns têm apresentado argumentos em favor da criação de uma versão cristã de modelos terapêuticos humanistas-experienciais como a TFE.24
Pode uma abordagem cristã de aconselhamento matrimonial adotar as perspectivas e técnicas da TFE? Jay Adams argumentou que ?sistemas bem elaborados são pacotes autossuficientes.?25 Ele enfatizou que métodos terapêuticos não são transferíveis entre sistemas de aconselhamento, pois sugeriu que ?os métodos não existem isoladamente, mas fazem parte de sistemas.?26 Por essa razão, Adams distinguiu as práticas de aconselhamento como ?meios? ou ?métodos?. Um ?meio? de aconselhamento é uma ferramenta basicamente neutra e ?não orientada?, enquanto um ?método? de aconselhamento é ?orientado a objetivos e consiste em formas estruturadas de utilizar meios.?27 Ele discutiu uma amostra de seis meios comuns de aconselhamento, incluindo falar, ouvir, recompensar/punir, agir, questionar e utilizar as Escrituras.28 Ele demonstrou que cada meio de aconselhamento não pode ser adotado a partir dos métodos de outras teorias sem ser contaminado pelas pressuposições e objetivos inerentes à outra teoria. Por exemplo, ele contrasta o meio de ouvir com o método de escuta rogeriana.29 As duas formas de escuta podem parecer semelhantes, mas não são a mesma atividade devido às pressuposições e objetivos incorporados. Por essa razão, Adams sugere esclarecer as pressuposições, o propósito e o objetivo final do meio para garantir que ele constitua um método verdadeiramente bíblico.
A TFE é um sistema de aconselhamento complexo que oferece muito mais do que um conjunto de técnicas neutras. A TFE possui uma visão clara do que significa o ser humano, do que dá errado nos relacionamentos humanos e de como resolver problemas relacionais. As técnicas da teoria são métodos inseparavelmente entrelaçados com suas pressuposições filosóficas e objetivos terapêuticos. Por essas razões, uma tentativa de integrar, traduzir ou redimir os métodos da TFE é inviável, pois o método é coerente e funcional apenas dentro do modelo terapêutico de origem.30
Doug Bookman oferece um arcabouço para descrever o processo pelo qual integracionistas cristãos e psicólogos cristãos buscam incorporar percepções da teoria psicológica em uma abordagem cristã de aconselhamento.31 O autor menciona o trabalho de Bookman para reforçar que a disparidade ontológica impede cristãos de adotarem métodos de estruturas terapêuticas como a TFE. Bookman apresenta três questões sob a forma de três perguntas. As três questões relacionadas à integração de psicologia e teologia são ontologia, ética e metodologia.32 Primeiro, a questão ontológica responde se teologia e psicologia podem ser integradas. Segundo, a questão ética responde se teologia e psicologia devem ser integradas. Terceiro, assumindo permissão ontológica e ética, a questão metodológica responde como teologia e psicologia podem ser mais bem integradas.
No caso da TFE, integracionistas afirmam que suas percepções podem e devem ser incorporadas a uma abordagem cristã de aconselhamento. Há, entretanto, o reconhecimento de que as pressuposições neo-humanistas são incompatíveis com a doutrina bíblica.33 Ainda assim, a discussão rapidamente avança para a adoção da metodologia sem tratar adequadamente da disparidade ontológica subjacente. Os métodos são considerados neutros e passíveis de recontextualização dentro de um paradigma cristão. À luz das percepções de Adams e Bookman, entretanto, é razoável sugerir que a extração de metodologia da TFE para uso no aconselhamento cristão é inviável. O principal argumento apresentado neste trabalho é que as pressuposições centrais da TFE são ontologicamente incompatíveis com a doutrina bíblica.34 Bookman afirma, de modo geral, que é ?a essência da teologia que a torna constitucionalmente incompatível com a psicologia.?35 Aplicado à TFE, este autor sustenta que suas pressuposições centrais são ?constitucionalmente incompatíveis? com a doutrina bíblica.
Ainda assim, psicólogos cristãos e integracionistas procuram fazer uso da TFE.36 Um psicólogo cristão argumenta que é essencial que conselheiros cristãos sejam informados pela TFE.37 A estratégia dos integracionistas e psicólogos cristãos é retrabalhar, redefinir e recontextualizar técnicas da teoria e metodologia da TFE.38 Michael McFee e Philip Monroe argumentam: ?Parece que considerar a relação entre modelos psicoterapêuticos humanistas e compreensões cristãs de mudança e crescimento como uma tradução entre dialetos (em vez de integrar duas cosmovisões concorrentes) oferece mais opções aos profissionais cristãos mais reflexivos.?39 Especificamente, as técnicas de interesse para McFee e Monroe são ?compreensão empática, exploração empática, orientação de processo, presença experiencial e respostas não experienciais diretivas de conteúdo.?40 McFee e Monroe rejeitam a ideia de que a TFE e o cristianismo devam ser abordados como ?duas cosmovisões concorrentes?, o que significa, para eles, que nada impede cristãos de adotarem técnicas da TFE.41 Ao contrário, este autor argumentará que é impossível adotar métodos da TFE sem importar suas pressuposições filosóficas implícitas, pois os métodos da TFE são inerentemente carregados de valores e direcionados a objetivos terapêuticos específicos. A seguir, algumas das pressuposições centrais da TFE serão contrastadas com o ensino bíblico para demonstrar essa disparidade.
Susan Johnson afirma que ?o paradigma mais apropriado para a intimidade adulta é o de um vínculo emocional. A questão central no conflito conjugal é a segurança desse vínculo.?42 Dois temas relacionados, mas distintos, são levantados nessa afirmação: um paradigma para compreender os relacionamentos e a questão central no conflito conjugal. O primeiro tema descreve um paradigma para a intimidade adulta, que pode ser considerado de forma mais ampla, mas aplica-se especificamente a um relacionamento romântico entre duas pessoas, em que há compromisso. Johnson está propondo um paradigma para compreender a natureza e o significado do relacionamento conjugal; trata-se, essencialmente, do que ela chama de vínculo emocional.
Para compreender o paradigma, é necessário definir o construto de vínculo emocional e considerar porque ele governa a compreensão de Johnson sobre o relacionamento conjugal. O construto de vínculo emocional aplica os princípios da teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby, aos relacionamentos adultos.43 Johnson acredita que ?uma das necessidades humanas mais fundamentais é ter uma conexão emocional segura ? um apego ? com aqueles que estão mais próximos de nós.?44 Ela sustenta que a dinâmica interpessoal do casamento consiste na necessidade emocional inata de uma pessoa de sentir-se segura, protegida, compreendida e amada por outra.45 De acordo com a teoria do apego, os seres humanos são biologicamente programados, por meio de processos evolutivos, a buscar um apego seguro com um parceiro para segurança, sobrevivência e reprodução.46 Johnson adota ?a visão dos seres humanos como mamíferos sociais que formam vínculos e que necessitam de relacionamentos próximos com outros confiáveis para sobreviver e prosperar.?47
Essas pressuposições acerca da natureza do casamento e dos problemas conjugais devem ser comparadas com uma explicação bíblica correspondente. A antropologia bíblica fornece a definição e a essência do relacionamento conjugal. Nos capítulos iniciais de Gênesis, Deus cria Adão e sua auxiliadora Eva. A criação de Adão e Eva demonstra a intenção divina para o casamento. Em Gênesis 2:18-25, a criação de Eva oferece uma perspectiva sobre a origem divina e a instituição do casamento. Eva é criada como uma auxiliadora complementar para Adão.48 Um autor descreve o casamento como uma ?aliança de companheirismo? estabelecida por Deus ?para resolver o problema da solidão humana.?49 O companheirismo surge do amor que se doa no contexto de uma união pactual. Os versículos 23-24 evocam linguagem pactual à medida que Adão e Eva se tornam ?uma só carne?.50 A união de ?uma só carne? é a essência do casamento, à medida que um homem e uma mulher entram em uma aliança juntos em amor sacrificial mútuo. Como portadores da imagem de Deus, a aliança do casamento destina-se a refletir o relacionamento de Deus com o Seu próprio povo. Em Efésios 5:22-33, o apóstolo Paulo desenvolve essa ideia ao mostrar como a união de ?uma só carne? expressa o relacionamento de Cristo com a igreja.51 A essência do casamento nas Escrituras é o companheirismo fiel à aliança, que reflete o amor sacrificial e a presença tangível de Deus, o Criador e Redentor.52
Diversos autores cristãos têm tentado ?redimir? essa pressuposição central da TFE ao argumentar que o vínculo emocional é análogo à união de ?uma só carne?. Winston Smith sugere que o vínculo emocional é uma ?incorporação do princípio de ?uma só carne? da Bíblia.? McFee e Monroe argumentam que ?a linguagem dos vínculos de apego pode ser vista como equivalente à linguagem teológica dos vínculos de aliança.?53 É razoável perceber algumas semelhanças entre um vínculo de apego conjugal e a união de ?uma só carne?. Por exemplo, ambos são caracterizados por proximidade, companheirismo, intimidade, prazer sexual e estabilidade. No entanto, essas características semelhantes são incidentais e não indicam identidade. Confundir o vínculo emocional com o companheirismo pactual é minimizar diferenças importantes e legítimas. Apesar das aparentes sobreposições, um vínculo emocional dentro da teoria do apego definitivamente não é o mesmo que o companheirismo fiel à aliança dentro de um arcabouço bíblico.
Na TFE, o casamento é fundamentalmente uma tentativa de satisfazer uma necessidade de vínculo emocional originada pela evolução naturalista. Nas Escrituras, o casamento é fundamentalmente a união de dois portadores da imagem de Deus, um homem e uma mulher, que buscam manifestar a glória de Deus por meio de um companheirismo pactual e sacrificial. Em termos antropológicos, as Escrituras não descrevem os seres humanos como definidos por necessidades de apego relacional que impulsionam homens e mulheres a relacionamentos românticos com outros. Biblicamente, os seres humanos são criados à imagem de Deus, e os relacionamentos interpessoais fazem parte da maneira pela qual a humanidade reflete a imagem do Deus Triúno.54
Uma vez que o construto de vínculo emocional explica a natureza e o significado do casamento no modelo de Johnson, faz sentido que ela aponte para o vínculo emocional quando os casamentos entram em crise. Ela afirma que ?a questão central no conflito conjugal é a segurança desse vínculo.?55 Johnson apresenta a teoria do apego como a forma pela qual a ciência agora explicou clinicamente os relacionamentos românticos. Ela afirma que ?o apego é uma teoria clínica que elimina o mistério do amor adulto e nos mostra a estrutura subjacente ao drama do sofrimento, de modo que possamos redirecionar esse drama de maneira eficaz.?56 Ela prossegue dizendo que ?a teoria do apego oferece respostas a algumas das questões mais fundamentais sobre os relacionamentos humanos.?57 Segundo Johnson, isso se torna a chave mestra para compreender o casamento e os problemas conjugais. Johnson afirma que ?o problema nunca está relacionado a questões de conteúdo, sejam elas sexo, dinheiro, criação dos filhos ou sogros?, mas que ?a questão está sempre em como o casal conversa entre si e lida com necessidades e medos fundamentais de apego.?58 Na TFE, os problemas conjugais surgem de conexões emocionais danificadas ou inseguras e de ciclos negativos de interação.
Retornando aos capítulos iniciais de Gênesis, a Bíblia oferece uma explicação para a discórdia conjugal. Trata-se, a saber, da Queda histórica, na qual Adão e Eva pecaram contra o Senhor, sendo esta a fonte primária dos problemas no casamento. Os problemas conjugais são resultado do pecado humano.59 Um relacionamento rompido com Deus é a origem de relacionamentos rompidos entre as pessoas. Nesse sentido, a TFE compreende de forma equivocada a natureza humana e a natureza do conflito humano. A importância dessa pressuposição não pode ser exagerada, pois a solução bíblica de dois pecadores sendo transformados pelo evangelho de Cristo por meio da fé e do arrependimento só faz sentido se o problema for corretamente diagnosticado como pecado e seus efeitos.
Susan Johnson argumenta que ?a emoção é fundamental na organização dos comportamentos de apego e na forma como o eu e o outro são experimentados em um relacionamento íntimo.?60 Além disso, ela sugere que ?os problemas nos relacionamentos são mantidos pela maneira como as interações são organizadas e pela experiência emocional dominante de cada parceiro na relação.?61 O foco na emoção é uma característica distintiva da abordagem TFE. A alegação é que a emoção é o fator-chave nos relacionamentos. Johnson esclarece que, por emoção, ela se refere ao ?pequeno número de emoções básicas universais? (itálico no original).62 Na TFE, essas emoções são especificamente ?raiva, medo, surpresa, alegria, vergonha/nojo, dor/angústia e tristeza/desespero.?63 Johnson resume sua visão das emoções como ?basicamente adaptativas, fornecendo um sistema de resposta capaz de reorganizar rapidamente o comportamento de uma pessoa em prol da segurança, da sobrevivência ou da satisfação de necessidades.?64
O papel da emoção na TFE é o processamento de informações, que Johnson descreve ?como uma integração de respostas fisiológicas, esquemas de significado e tendências de ação, bem como a consciência autorreflexiva dessa experiência.?65 As emoções são compreendidas como respostas intuitivas baseadas em estruturas esquemáticas desenvolvidas por meio da experiência pessoal. Johnson explica que ?estruturas emocionais ou modelos são construídos em relação a situações que frustram ou satisfazem necessidades e objetivos.?66 A emoção é, em grande medida, pré-cognitiva e reflexiva. Johnson afirma que o fluxo da emoção segue os contornos de avaliação, excitação, reavaliação e ação.67 As experiências emocionais, quando refletidas, podem proporcionar a oportunidade de ?um retorno significativo sobre como nosso ambiente está nos afetando? e servem para ?nos mobilizar a lidar rapidamente com encontros pessoais importantes.?68
As emoções constituem o foco intrapsíquico e interpessoal da TFE. Johnson apresenta três razões pelas quais as emoções são o foco na TFE. Primeiro, embora ela veja as emoções como geralmente adaptativas, elas podem ?surgir fora de contexto e restringir a forma como as situações presentes são processadas.?69 Segundo, as emoções devem ser reguladas para que não se seja dominado pela sua experiência. Terceiro, ?limitações na consciência ou expressão emocional? podem resultar em ?espirais de emoções e interações negativas.?70
Na teoria da TFE, as experiências pessoais e interpessoais da emoção são consideradas centrais. Recorde-se de que o conflito conjugal na TFE ocorre quando o vínculo emocional é rompido; assim, a experiência emocional de emoções como medo, raiva, dor ou tristeza entre os cônjuges fornece as informações necessárias para esclarecer os padrões de ciclos negativos e restabelecer o vínculo. Acessar, encenar e afirmar a experiência emocional tornam-se aspectos vitais do processo terapêutico. Na TFE, o objetivo é transformar a experiência emocional e alterar a maneira como o casal experimenta emocionalmente um ao outro.
A Bíblia tem muito a dizer sobre as emoções, e alguns aspectos parecem corresponder a elementos da TFE, como a bondade e a importância da emoção em fornecer informação e motivação.71 Ainda assim, a TFE apresenta a emoção como produto de adaptação evolutiva e a avalia apenas em termos de utilidade. Dois aspectos específicos são biblicamente problemáticos na forma como a emoção é concebida na TFE. Primeiro, a noção de que a experiência emocional é vista como adaptativa e deve ser afirmada sem a introdução de julgamento a partir de referenciais externos. As emoções funcionam segundo a adaptabilidade evolutiva; elas são ativadas dentro do indivíduo para buscar e preservar interesses próprios. As emoções não são avaliadas em termos morais ou éticos, mas apenas em termos utilitaristas e centrados na pessoa. Por exemplo, a ira não é classificada como certa ou errada, mas é aceita, afirmada e explorada. A Bíblia, entretanto, ensina que as emoções são justas ou injustas em sua motivação e expressão.72 Ao contrário, uma visão inteiramente positiva da natureza humana é pressuposta pela TFE, e as emoções são consideradas essencialmente boas e guias confiáveis para a satisfação das necessidades pessoais de apego. A bondade inata do ser humano é um princípio central da TFE e uma divergência significativa da antropologia bíblica.
Segundo, as emoções são apresentadas como necessidades de apego que devem ser satisfeitas para que a pessoa e o relacionamento prosperem. Se um homem puder assegurar um vínculo emocional e satisfazer suas necessidades de apego, ele poderá sobreviver e florescer. Em contrapartida, as supostas necessidades emocionais e de apego descritas por Johnson são mais precisamente desejos profundos e anseios do coração.73 O desejo por segurança, proteção, controle, afirmação e assim por diante não são necessidades humanas como água, alimento ou abrigo. Embora esses desejos possam ser expressos e satisfeitos de maneiras piedosas, também podem tornar-se ímpios e pecaminosos. A Bíblia descreve o papel dos desejos desordenados e como desejos não pecaminosos, podem evoluir até o nível de exigências pecaminosas.74 A TFE apresenta a necessidade de ter uma conexão emocional, vínculo e aceitação com outra pessoa como algo essencial à humanidade de um modo que a Bíblia não apresenta. Por exemplo, a suposta necessidade de afirmação e aceitação por parte do cônjuge pode ser um desejo extremamente intenso, acompanhado de medo, decepção e ira quando negado, mas não pode ser descrito biblicamente como uma necessidade de apego que deve ser satisfeita para que o cônjuge esteja emocionalmente pleno e capaz de amar o outro. Em uma estrutura bíblica, lidar com os desejos desordenados do coração que estão sendo expressos de forma pecaminosa é a questão central para compreender e resolver conflitos interpessoais.75 Expectativas não atendidas e desejos frustrados, e não necessidades de apego não satisfeitas, estão no cerne do conflito.
Johnson afirma que as emoções são a chave para resolver problemas conjugais. Embora as emoções sejam importantes, a Bíblia vai além da experiência emocional para resolver os problemas humanos. Na antropologia bíblica, as emoções são expressões ativas do que está no coração ou na alma ? a parte imaterial e interior da pessoa.76 Por essa razão, a questão mais profunda e central nos problemas conjugais não é regular a experiência emocional, mas renovar o coração. As emoções são uma porta de entrada para o funcionamento interno do coração.77 O foco experiencial, orientado ao processo, centrado no afeto, que visa promover consciência emocional, regulação emocional e conexões emocionais, é insuficiente para transformar as estruturas mais profundas do coração, onde os pensamentos, crenças, desejos e compromissos subjacentes permanecem inalterados.
O mamífero altamente evoluído da TFE que expressa emoções para satisfazer necessidades de apego está longe de uma visão bíblica do homem. O cristão, ao contrário, entende o homem como um adorador, portador da imagem de Deus, que vive a partir do transbordamento do que está em seu coração. Embora Johnson enfatize corretamente a importância da emoção, ela define a emoção, interpreta suas funções e prioriza a experiência emocional de maneiras que não estão em conformidade com a antropologia bíblica. O pressuposto bíblico é que a emoção é utilizada para discernir o que está acontecendo no coração em resposta à experiência relacional da pessoa.
Ao abordar a tarefa da mudança terapêutica, é importante considerar que a TFE é uma síntese de abordagens experiencial e sistêmica à terapia.?78 Pressupostos humanistas, centrados na pessoa e experienciais são essenciais ao seu modelo de mudança terapêutica.79 Da mesma forma, aspectos da teoria dos sistemas são igualmente essenciais aos métodos da TFE.80 A combinação intrapsíquica e interpessoal reflete a convergência de ideias da teoria dos sistemas e do experiencialismo humanista para criar uma forma distinta de terapia. O processo de mudança visa à regulação emocional intrapsíquica e a responsividade emocional interpessoal.81 Ele é rigorosamente focado no presente, não em experiências emocionais passadas ou hipotéticas. O terapeuta não está interessado no conteúdo, mas na experiência emocional e nos comportamentos de apego.82 Brent Bradley explica que ?o foco não está apenas nos modelos cognitivos acionados por sinais afetivos, mas também em delinear os mapas procedurais automáticos para a regulação do afeto ? isto é, como alguém lida com, integra, afasta ou age a partir do próprio afeto em momentos de sofrimento relacional.?83 O terapeuta facilita uma experiência emocional com o objetivo de aumentar a consciência emocional. Johnson afirma que ?desenvolver emoções-chave e utilizá-las para gerar novas respostas ao parceiro em encenações terapêuticas é o cerne da mudança na TFE.?84
O processo terapêutico da TFE pode ser descrito em três estágios e nove etapas distintas. Cada uma das etapas atua dentro dos estágios para organizar a experiência emocional de cada parceiro e reconectar o casal, facilitando a criação de um vínculo emocional mais seguro. Johnson descreve três estágios principais no processo da TFE: desescalada, reestruturação do vínculo e consolidação.85 Em outras palavras, o terapeuta de TFE busca ajudar o cliente a tornar-se consciente de sua própria experiência emocional e de suas necessidades, e de como se tornar emocionalmente acessível, responsivo e engajado com seu cônjuge.86 O resultado ideal que representa o sucesso terapêutico é que cada cônjuge se torne ?uma fonte de segurança, proteção e conforto de contato para o outro? e ajude a ?auxiliar o outro na regulação do afeto negativo e construir um senso de identidade positivo e vigoroso.?87 Uma característica importante é que ?a intervenção é guiada por marcadores.?88 Na TFE, a mudança consiste em facilitar a criação de novas experiências emocionais tanto no indivíduo quanto no casamento.89 Johnson observa que ?o objetivo é descobrir e esclarecer a realidade emocional ? o motor de medos e anseios por trás da narrativa que cada cliente apresenta acerca de seus problemas e dilemas.?90
Ao final da TFE, espera-se que o casal apresente os seguintes sinais de progresso terapêutico.91 O casal demonstrará regulação afetiva individual/interpessoal. O casal será mais emocionalmente acessível, responsivo e engajado um com o outro. Cada cônjuge terá uma nova perspectiva de si mesmo, do outro e do relacionamento. Os ciclos de interação negativa terão sido substituídos por um apego emocional mais seguro e positivo.
Em contraste, a Bíblia fornece um modelo de como ocorrem a mudança e o crescimento. O processo bíblico de mudança não concorda com a premissa central de Johnson de que ?a mudança na TFE está associada ao acesso e ao reprocessamento da experiência emocional subjacente à posição de cada parceiro no relacionamento.?92 A TFE possui um processo terapêutico que, de maneira télica, facilita mudanças na maneira como os casais expressam emoções entre si, e a mudança na postura e na prática emocional visa restabelecer um vínculo emocional no qual cada parceiro sinta que suas necessidades estão sendo atendidas. Na TFE, o problema é fundamentalmente emocional e baseado no apego. Biblicamente, o problema nos relacionamentos rompidos é fundamentalmente o pecado e seus efeitos. Dessa forma, os problemas relacionais têm raiz espiritual.93 Antropologicamente, a TFE não está em conformidade bíblica com a natureza dos problemas humanos nem com a solução de Deus para tais problemas.
O modelo de mudança apresentado nas Escrituras é a santificação.94 A mudança bíblica é o processo de conformar o participante ativo à imagem de Cristo, para que ele ame a Deus e aos outros corretamente, para a glória de Deus.95 Restaurar relacionamentos humanos de maneira que agrade a Deus requer santificação capacitada pelo Espírito e a aplicação dos recursos da Palavra de Deus aos problemas específicos que os casais enfrentam. Por exemplo, Robert D. Jones oferece um modelo bíblico que apresenta cinco princípios fundamentais para a mudança bíblica centrada em Cristo.96 Esses princípios, em contraste com a TFE, são orientados à redenção, abordam o pecado e o sofrimento e visam mudanças no nível do coração e do comportamento por meio do poder da Palavra e do Espírito de Deus. Essas premissas fundamentais conduzem a três movimentos-chave no processo de mudança bíblica: crer, arrepender-se e obedecer.97 Restaurar relacionamentos humanos requer fé, arrependimento e obediência a Deus. O ponto é que a Bíblia possui um processo de mudança que não se harmoniza com a TFE. O aconselhamento baseado em pressupostos biblicamente fiéis produzirá uma metodologia coerente com as Escrituras, com o propósito de ajudar casais a terem um relacionamento que agrade a Deus.
A tese apresentada neste artigo é que a TFE deve ser rejeitada por conselheiros cristãos com base no fato de que as premissas principais da teoria, conforme articuladas por Susan Johnson, são incompatíveis com a antropologia bíblica. A tese foi demonstrada das seguintes maneiras. Primeiro, argumentou-se que a metodologia está inevitavelmente conectada a pressupostos subjacentes carregados de valores e orientados teleologicamente. Segundo, as principais premissas de Susan Johnson foram contrastadas com a antropologia bíblica. A disparidade entre a TFE e a antropologia bíblica foi demonstrada nas questões da natureza humana, do propósito do casamento, da função das emoções humanas e do processo de mudança.98